AREIAS DO SENEGAL - DAKAR, UMA CAPITAL TREPIDANTE


        O vento sopra agradavelmente, deixando frescas as tardes no ponto mais ocidental da costa africana. A planície semi-árida do Senegal, coberta pelas areias do deserto soprada pelo vento constante, faz com que uma nuvem de areia fina vá passeando entre casas e ruas entrando por todas as partes, impregnando na pele e nos cabelos, dando sempre uma sensação de pele ressecada, e os dentes com a gastura dos grãos de areia.
        Nas casas mesmo depois de se varrer o chão várias vezes tem-se a impressão de estar ainda a areia presente. Os carros de igual forma sempre bem cobertos de areia fina e penetrante.
        O Senegal tem quase 10 milhões de habitantes e Dacar conta cerca de 2.200.000, vivendo numa agitação que nada lembra uma África tranqüila e bucólica. Apesar do francês ser a língua oficial, é a que menos se houve nas ruas. O ulof predomina sendo seguida do fulani, serere e o diola.
        As ruas da Capital estão sempre cheias de gente apressada, de pedintes em cadeiras de rodas, de crianças exploradas pelos lideres religiosos islâmicos que vivem das esmolas dadas as crianças. As filas são enormes, no banco, nos correios e em todos os lugares. As barracas ou os panos pelo chão dos camelôs infestam a trepidante cidade.
        Como o continente africano passa por conflitos e guerras constantes a imigração tornou-se muito grande, sendo comum os grupos de nacionalidades diferentes perambulando pelas ruas da capital senegalesa. A Mauritânia, o Mali, a Guiné-Bissau e a Guiné fazem divisas com o Senegal, tendo ainda a Gâmbia como um enclave em seu território.
        A moeda do Senegal é o franco CFA, que é usado por vários países do continente, como uma moeda comum, valendo cerca de 600 por um dólar. O custo de vida é relativamente caro em se comparando com o Brasil. O transporte público é feito por micro-ônibus, chamados de "car rapide", todos em estado calamitoso de conservação, sempre superlotados e sem pontos certos de paradas, não respeitando regras elementares de trânsito, que parecem não existir. Não há portas laterais, os passageiros entram pela porta traseira, com e como carga. Os cobradores ficam em pé, sobre o estribo traseiro e vão gritando a destinação do veículo, pois não há indicativos do destino nem do percurso.
        Quase todas as pessoas transportam suas compras sobre a cabeça, em baldes e bacias plásticas, equilibradas com maestria e destreza. Ao entrarem nos "car rapides", precisam de espaços para si mesmas e para suas tralhas.
        Os ônibus normais, que também circulam, mas em menor número, mas não menos lotados, dão-me a impressão de uma lata de sardinhas amassada. A superlotação de meios de transporte é tão comum e grave, que mesmo depois do acidente em Setembro de 2002, um barco estatal que tinha lugar para 300 pessoas virou no trajeto Dacar/Ziguinchor, e morreram 1200 pessoas, 4 vezes mais que a capacidade da embarcação.       Esse acidente resultou também na renúncia da primeira ministra.
        A vida trepidante da maior metrópole do Senegal é reflexo de uma modernização das cidades em detrimento do campo, implicando num afluxo de população para os grandes centros e uma diminuição de mão de obra na agricultura.
        O balido dos carneiros que esperam à morte, devido aos sacrifícios exigidos pela pelo islamismo para a purificação dos pecados do povo, se mistura às buzinas dos carros que pedem passagem.
        Dakar é assim.

 

Pastor Paulo Roberto Sória